Anais: Geomorfologia fluvial
Classificação de nascentes da Reserva Ecológica do Clube Veredas: colaboração para o manejo das reservas particulares de Belo Horizonte, MG
AUTORES
Lucena, U. (UFMG) ; Carmo, L. (UFMG) ; Marques, C. (UFMG) ; Felippe, M. (UFJF)
RESUMO
O artigo tem como objetivo mapear e classificar as nascentes localizadas na
Reserva Ecológica do Clube Veredas, em Belo Horizonte, MG. Em espaços densamente
ocupados, as áreas privadas possuem grande importância na proteção dos mananciais
hídricos. Os procedimentos metodológicos estão baseados em investigações de campo
para descrever as características das nascentes. Foi dada prioridade à morfologia
local e ao tipo de exfiltração. Os resultados confirmam a diversidade das
nascentes.
PALAVRAS CHAVES
Nascente; Meio ambiente; Belo Horizonte
ABSTRACT
The paper aims to mapping and classify the river springs located in the Clube
Veredas, a particular reserve in the northeast of Belo Horizonte, MG. In spaces
with high occupation density, the private lands are important to the protection of
water sources. The methodological procedures are based in field investigation to
describe the characteristics of the springs. It is given priority to the local
morphology and the type of water exfiltration. The results attest the springs’
diversity.
KEYWORDS
River springs; Environment; Belo Horizonte
INTRODUÇÃO
As reservas particulares podem se constituir em importantes áreas de proteção
das nascentes, sobretudo em municípios densamente ocupados, como é o caso de
Belo Horizonte, MG. Nesse município, a bacia do Córrego Braúnas (afluente do
Córrego Bom Jesus, na bacia do Ribeirão Pampulha), na porção nordeste de Belo
Horizonte, é um local ímpar à conservação dos mananciais. A área encontra-se
sobre os granitóides e gnaisses do Embasamento Arqueano (SILVA et al, 1995), no
compartimento morfológico da Depressão de Belo Horizonte (IBGE, 2006). O trecho
estudado localiza-se no limite dos municípios de Contagem, Belo Horizonte e
Ribeirão das Neves, área de conurbação urbana, característica da acelerada
ocupação da RMBH. Na alta bacia do Córrego Braúnas individualizam-se três
cabeceiras de drenagem que constituem formas côncavas destacadas na
compartimentação morfológica da bacia: a Cabeceira Norte, que comporta as
principais nascentes e corresponde a uma área ainda não ocupada, com a vegetação
devastada, a Cabeceira Oeste -ocupada por uma chácara, com vegetação bastante
alterada e plantio de eucaliptos no topo do morro, sendo o principal uso do solo
a pastagem e, por último, a Cabeceira Leste, onde se localiza a área de estudo.
Nesta há edificações no terço superior da vertente, área preservada no terço
médio, que também corresponde ao centro da concavidade, com a área preservada
pela Reserva Particular Ecológica (RPE) do Clube Veredas e no terço inferior
comporta área verde, por iniciativa do Clube Progresso. A proposta deste artigo
é mapear e classificar as nascentes da RPE do Clube Veredas, unidade de
conservação de 11.000 m², onde estão localizadas 20 nascentes, as quais
apresentam morfologia de concavidade, concavidade/intervenção e duto
diferenciando-se também quanto às características de exfiltração: difusa,
múltipla e pontual. A caracterização foi baseada em uma matriz construída
através dos dados recolhidos em campo na RPE, nos meses de maio e junho de 2012.
MATERIAL E MÉTODOS
A primeira etapa metodológica foi o levantamento de documentos legais sobre a
RPE do Clube Veredas: Decreto 8163, Parecer Técnico de 21/08/1994 – redigido
para a criação da reserva; Parecer Técnico para revisão da Tributação em 2006, e
Parecer Jurídico, todos constando no Processo 01-068464/94-94 da RPE e
consultados na Secretaria Municipal de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo
Horizonte. Em seguida, realizou-se o levantamento de cartas impressas a fim de
reconhecimento da área de estudo: a) topográficas - Folha de Contagem (IBGE,
1981) e Folha de Belo Horizonte (IBGE, 1981); b) geológica - Folha Belo
Horizonte (CPRM, 2004) e c) do Mapa de Vegetação do Brasil (IBGE, 2004).
Posteriormente, realizaram-se atividades de campo durante o primeiro semestre de
2012 para localização e caracterização das nascentes, segundo procedimentos
propostos por Felippe (2009). Primeiramente, identificaram-se as surgências que
haviam sido alvo da intervenção antrópica sob a forma da criação de drenos
(canais artificiais), característica muito comum no local, e das nascentes com
morfologia pouco ou não alterada. Passou-se, então, à caracterização da
morfologia e do tipo de exfiltração das nascentes. No campo foram utilizados os
seguintes materiais: aparelho GPS Garmin 60Csx, trena de 5m Lufkin, câmera
digital Sony Cyber-Shot, e check-lists elaborados em gabinete para averiguação
em campo das características das nascentes.
Na terceira etapa as nascentes identificadas foram caracterizadas com base em
uma matriz elaborada como resultado do trabalho de campo, que contém o nome da
nascente, o ponto do GPS, a catalogação de fotografias, morfologia, exfiltração
e presença de afloramentos rochosos (não identificada nenhuma situação em
campo). A elaboração dessa matriz possibilitou a geração de novas informações
sobre a dinâmica hídrica local da reserva, que subsidiam, por sua vez, a
proposição da criação de um plano de manejo, tendo em vista esta deficiência
normativa para a proteção da área.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A Bacia do Córrego Braúnas localiza-se no Complexo Belo Horizonte composto de
rochas arqueanas do Cráton do São Francisco, no qual o litotipo predominante são
granitos cinza claro bandados e migmatizados(NOCE et al 1997). É cortada por um
dique básico composto de basalto e quartzo toleíticos com textura ígnea,
atravessando a área mais a montante da bacia, próximo à cota de 820m.
Estruturamente são identificáveis três falhas, uma mais alongada no sentido NE-
SW e duas menores no sentido NW-SW. Em classificação da CPRM realizada em 2001
(BEATO et al, 2003) o sistema aquífero detectado como predominante na área da
bacia é (i) fraturado constituído de rochas granito-gnaíssicas cortados por
diques máficos, recoberto por espesso manto de intemperismo de até 120m; (ii)
sistema aquífero granular está presente na baixa bacia (abaixo da cota de 800m),
constituído de sedimentos aluvionares de pouca espessura. A Geomorfologia do
Complexo Belo Horizonte caracteriza-se por uma área deprimida cognominada
Depressão de Belo Horizonte com morfologia correspondente à formas de colinas
suavizadas de topos arredondados. A vegetação é característica da transição da
Floresta Estacional Semi-Decidual para Savana (IBGE, 1993).
As nascentes identificadas foram caracterizadas com base em uma matriz elaborada
como resultado do trabalho de campo, baseadas nos trabalhos de classificação de
Faria (1997), Valente e Gomes (2005) e Felippe (2009). Na RPE as morfologias
encontradas foram (i) concavidade: exfiltram em trechos côncavos da vertente,
formando canais apenas à jusante da exfiltração; (ii) intervenção: exfiltração
através de canos ou drenos colocados pelo homem; (iii) duto: canais erosivos
subterrâneo horizontal que intercepta a superfície; (iv):
concavidade/intervenção: nascentes antropogênicas, originadas de drenos
escavados no solo, entretanto dentro de um trecho côncavo da vertente.
Na morfologia intervenção enquadram-se as nascentes V23 e V24, ambas exfiltrando
pontualmente de canos localizados nos limites da área preservada com a área
construída.
A nascente V18 possui morfologia em duto e exfiltração pontual, que denota a
erosão subsuperficial advinda de um fluxo concentrado, específico dessa
nascente.
A morfologia mais comum encontrada na reserva é a concavidade, que abarca nove
nascentes. Nesse sentido, variam os tipos de exfiltração. V7 é a única nascente
difusa localizada na mais baixa porção da vertente estudada, de forma que sua
descarga é identificável principalmente nas raízes de uma árvore, porém a
exfiltração é areal, conformando um local alagado e uma área de acumulação da
água. As nascentes V2, V19, V21 e V22 são múltiplas. V21 é nascente da qual se
origina o canal principal sudeste-noroeste. V19 e V22 contribuem com este
canal, concentrando os fluxos da parte norte da RPE – V3 é pontual, contribuindo
para este mesmo canal. V2 drena o leste da reserva e deságua em V1 (morfologia
concavidade/intervenção). As nascentes pontuais V5, V6, V8, estão na parte sul
da RPE. Infere-se que V5 tenha migrado para jusante devido à terraplenagem e
impermeabilização da área à montante para a construção de dois campos de
futebol, confinando uma área disponível para a exfiltração dentro da RPE.
Para a morfologia concavidade/intervenção também foi identificado um número alto
de nascentes (oito) que apresentam exfiltração pontual ou múltipla. V12 e V15
são múltiplas, localizadas no centro da RPE. Ambas apresentam ferro mobilizado
no canal e iridescência. Com exfiltração pontual há as nascentes V1, V9,
V13,V16, V17 e V20 que também apresentam ferro mobilizado e iridescência. Todas
essas nascentes têm cerca de 20 cm de espessura no seu ponto inicial,
provavelmente escavados com uso de uma enxada comum. A V1 é um dreno maior com
cerca de 80 cm de largura, concentrando o fluxo da área leste do terreno, em
direção ao canal sudeste-noroeste.
Figura 1
Mapa de localização das nascentes estudadas na RPE
Clube Veredas.
Tabela 1
Morfologia e tipo de exfiltração das nascentes
estudadas na RPE Clube Veredas
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A identificação, o mapeamento e a interpretação das características das nascentes
consistem em ações fundamentais para a proteção dos recursos hídricos e, portanto,
significam a base para a realização de um plano de manejo eficiente para unidades
de conservação.Como resultados do presente trabalho, além da diversidade de
características, destaca-se a elevada densidade de nascentes encontrada (181,8
nascentes/km2), valor que representa o maior já encontrado no âmbito do grupo de
pesquisa (CNPq) Geomorfologia e Recursos Hídricos- IGC/UFMG. Esses dados
evidenciam a relevância da manutenção de reservas localizadas em áreas urbanas
para a conservação das águas.
Além disso, ficaram evidentes as limitações do Parecer Técnico original, que se
mostrou muito superficial ao caracterizar os elementos hídricos da RPE,
privilegiando as características da vegetação. Deve-se levar em conta também que a
atuação humana na área se mostrou um importante fator de alteração ambiental.
AGRADECIMENTOS
À Secretaria Municipal de Meio Ambiente e à Prefeitura de Belo Horizonte, pelo
fornecimento das informações legais e normativas. Ao grupo de pesquisa (CNPq)
Geomorfologia e Recursos Hídricos, do Instituto de Geociências da Universidade
Federal de Minas Gerais.
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