Autores

Crist, P. (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA) ; Sandino Meneguzzo, I. (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE PONTA GROSSA)

Resumo

Este trabalho tem como objetivo apresentar a geodiversidade do Parque Estadual do Vale do Codó, situado em Jaguariaíva, Paraná demonstrando sua relevância para o geoturismo. A metodologia empregada envolveu trabalhos de campo e análise de carta topográfica e geológica. No parque, existe um conjunto de feições geológico-geomorfológicas, as quais se destacam do ponto de vista da geodiversidade. Na área do parque foram identificadas as seguintes feições: escarpa, lapas, bacias de dissolução, caneluras, relevo ruiniforme, icnofósseis, estratificação cruzada, cachoeiras, canyons e meandro abandonado. A geodiversidade do parque possui relevância para a ocorrência de atividades que envolvam o geoturismo.

Palavras chaves

Geodiversidade; Geoturismo; Vale do Codó

Introdução

O segmento leste do estado do Paraná, possui uma geologia e geomorfologia peculiares no contexto brasileiro. Ocorrem nesta porção da unidade da federação afloramentos rochosos com características físico-químicas e idades bastante variadas, o que, consequentemente em interação com processos da dinâmica externa do planeta ao longo do tempo geológico promovem a origem de formas de relevo diversificadas. O Parque Estadual do Vale do Codó (PEVC) (Figura 01), criado por meio de lei estadual no ano de 2007 e, situado geograficamente no contexto supracitado, é uma unidade de conservação de proteção integral, a qual ainda não foi efetivamente implementada pelo poder público estadual. Estudos com diferentes abordagens (OLIVEIRA e GUIMARÃES, 2005; MENEGUZZO, 2015) envolvendo a área em questão, tem evidenciado a geodiversidade existente no âmbito do PEVC e suas potencialidades para o geoturismo. Possui uma diversidade de feições geológico-geomorfológicas entalhadas em rochas da formação Furnas, as quais evidenciam diferentes processos em sua geomorfogênese. Cabe destacar que a unidade de conservação está localizada entre os compartimentos geomorfológicos do Primeiro e do Segundo Planalto Paranaense e o recorte espacial do presente trabalho trata da geodiversidade do parque dentro deste último compartimento. Diante disso, o presente trabalho tem como objetivo apresentar a geodiversidade do PEVC com vistas a contribuir para um melhor conhecimento da área e, dessa forma, o poder público estadual efetivar medidas que visem a conservação do meio físico, em especial os atributos geológico-geomorfológicos e fomentar assim o geoturismo. No tocante a geodiversidade, muitas iniciativas têm sido tomadas no sentido de ampliar o conhecimento a seu respeito, e estender sua divulgação científica. Um exemplo dessas inciativas é o projeto de elaboração de um mapa da geodiversidade do Estado Paraná pelo SGB/CPRM, cujo trabalho tem entre seus objetivos propiciar subsídios para a gestão ambiental e para o planejamento territorial (PINHO et al, 2015).

Material e métodos

Diante do objetivo inicialmente proposto, a sequência de procedimentos para realização da pesquisa ocorreu da seguinte forma: Revisão bibliográfica: O primeiro procedimento para a realização da pesquisa deu-se através do levantamento da bibliografia preexistente referente à área de estudo em seus aspectos como geologia e geomorfologia. Num segundo momento foram levantados dados mais específicos relativos às feições geológicas e geomorfológicas de interesse geoturístico adotando os seguintes procedimentos metodológicos: Análise de carta topográfica: Foi consultada e analisada a carta topográfica intitulada “Barra Brava” publicada pelo IBGE (2001). Por meio dessa análise pôde-se verificar as cotas altimétricas da área de estudo, os desníveis topográficos e o arranjo espacial dos rios Jaguariaíva e Lajeado Grande. Análise de Carta Geológica: A folha geológica Telêmaco Borba SG 22-X-A foi consultada e analisada para identificação da geologia local, em especial para identificação de feições superficiais como falhas, fraturas e diques de diabásio. Trabalhos de campo: Foram realizados dois trabalhos de campo no mês de outubro de 2015, com o intuito de identificar as feições geológicas e geomorfológicas presentes no PEVC, bem como o registro fotográfico das mesmas. Foram percorridas trilhas ao longo do parque, as quais foram estabelecidas aleatoriamente por pessoas que se interessam em visitar a unidade de conservação.

Resultado e discussão

A unidade de conservação localiza-se no município de Jaguariaíva, na região dos Campos Gerais do Paraná e possui uma área de aproximadamente 760 hectares. Figura 01 Na região do PEVC pôde-se constatar a existência de diversas feições geológico-geomorfológicas (Cf. Figura 2: Mosaico), as quais são de importância geoturística, conforme segue: Escarpa: A Escarpa Devoniana constitui-se numa macro feição gemorfológica que divide o Primeiro e o Segundo Planalto Paranaenses. Na área do PEVC a escarpa apresenta-se como um degrau topográfico com paredes abruptas onde o rio Jaguariaíva a atravessa no sentido norte-sul. Lapas: Na área de estudo foram identificadas duas lapas. Uma delas encontra-se às margens do rio Lajeado Grande, nas proximidades da cachoeira do Lago Azul. A outra foi identificada em afloramento rochoso em ambiente de encosta, na margem esquerda do rio Jaguariaíva. Marmitas: Na região do PEVC foram identificadas marmitas no leito do rio Jaguariaíva, próximo da confluência com o rio Lajeado Grande. Essas feições podem ser observadas em ilhas que ocorrem devido ao rebaixamento do nível do rio Jaguariaíva. A montante desse local existe o represamento e desvio do supracitado rio, o que, consequentemente faz com que seu nível esteja rebaixado em relação ao seu padrão original, antes da ocorrência dessa intervenção antrópica. Cachoeiras: As principais cachoeiras que ocorrem na região do PEVC são a Cachoeira do Véu da Noiva, Cachoeira do Lago Azul e Cachoeira das Andorinhas. Ambas situam-se no rio Lajeado Grande, afluente da margem direita do rio Jaguariaíva. A primeira possui um desnível de aproximadamente 50 metros, a segunda de aproximadamente 20 metros e, finalmente a terceira um desnível de 15 metros. A origem dessas feições está relacionada à existência de estruturas sedimentares, tectônicas e da própria diferenciação textural do arenito Furnas, que responde de forma diferenciada em relação à ação das águas fluviais. Icnofósseis: Oliveira e Guimarães (2005) em estudo referente à caracterização dos icnofósseis presentes nas proximidades da cachoeira do Lago Azul no rio Lajeado Grande, identificaram 7 afloramentos contendo esses registros paleontológicos. De acordo com esses mesmos autores foram encontrados 3 grupos de vestígios em lajes de arenitos da Formação Furnas. Nesse estudo pôde-se verificar por meio de trabalho de campo o terceiro grupo dos quais Oliveira e Guimarães (2005) se referiram. Esse afloramento possui uma densidade elevada de icnofósseis com largura milimétrica e comprimento médio não superior a 2 centímetros com formatos variando de curvilíneo a retilíneo, preservados em epirrelevo côncavo (OLIVEIRA; GUIMARÃES, 2005). Estratificação cruzada: Na região do PEVC ocorre com tamanho decimétrico nas proximidades da Cachoeira do Lago Azul. Canyons: Na área de estudo, o rio Lajeado Grande e o rio Jaguariaíva possuem essa feição geomorfológica. A gênese desses canyons está associada à erosão fluvial, onde os cursos d’água promovem a incisão vertical no relevo ao longo do tempo geológico, rebaixando o nível de suas águas e, consequentemente promovendo a origem de paredes verticalizadas sustentadas pelo arenito Furnas. O canyon do rio Lajeado Grande possui aproximadamente 450 metros de extensão e desnível de aproximadamente 50 metros. O rio Lajeado Grande possui aproximadamente 12 quilômetros de extensão, sendo que o canyon ocorre próximo de sua foz, no rio Jaguariaíva. Esse mesmo curso fluvial possui nítido controle estrutural e está posicionado na direção oés-noroeste - és-sudeste (WNW-ESE). Por sua vez, o rio Jaguariaíva, no âmbito do parque possui um vale na forma de canyon onde as amplitudes altimétricas chegam a atingir 80 metros entre o topo da vertente e o nível d’água. Possui extensão de aproximadamente 9 quilômetros. O rio está encaixado no fundo do vale e possui direção norte-sul (N-S). Meandro Abandonado: Esta feição foi identificada na margem esquerda do rio Jaguariaíva, em zona de transição entre o Primeiro e o Segundo Planalto Paranaense. Os meandros abandonados evidenciam processos fluviais pretéritos em que o canal do rio sofreu alteração devido à dinâmica hidrológica. Caneluras: Esta feição foi identificada em afloramento rochoso na margem esquerda do rio Jaguariaíva em ambiente de encosta. As caneluras (sulcos que cortam as rochas) formam-se devido à ação das águas pluviais (WRAY, 1997) que atuam através do impacto e escoamento das águas pluviais sobre a superfície esculpindo essas feições. Melo (2006) acrescenta que a dissolução é um processo que contribui na gênese e evolução dessas feições, atingindo o material cimentante do arenito Furnas. Essas feições foram observadas na margem esquerda do rio Jaguariaíva. Bacias de dissolução: Feições geomorfológicas, denominadas de bacias de dissolução (WRAY, 1997) ocorrem na área do PEVC. Essas feições foram identificadas em afloramento rochoso situado em ambiente de encosta e constituem-se em pequenos poços com diâmetro de aproximadamente 30 centímetros, por vezes apresentando coalescência, e profundidade de aproximadamente 10 centímetros. Vista em planta algumas possuem formato circular e/ou oval. As feições identificadas apresentam areia em seu interior, resultado dos processos morfogenéticos atuantes nessas feições. Alvéolos: Os alvéolos foram identificados em parede rochosa, na margem esquerda do rio Lajeado Grande, nas proximidades da Cachoeira do Lago Azul. Na área de estudo apresentam poucos centímetros e ocorrem em paredes rochosas e no teto das lapas. Melo (2006) aponta que a origem dessas feições está associada à combinação da dissolução do cimento dos arenitos com erosão mecânica. Além disso, pôde-se observar na área de estudo a presença de insetos e umidade, o que possivelmente contribui para a evolução dessas feições. Relevo ruiniforme: Esta feição foi identificada em ambiente de encosta, nas proximidades da confluência do rio Jaguariaíva com o Rio Lajeado Grande. A origem dessa feição está atrelada a ação da erosão química promovida pelas águas pluviais e da erosão mecânica (MELO, 2006). A presença de liquens é relativamente comum nessas formas de relevo. Assim, a ação do intemperismo químico-biológico por meio da liberação de substâncias também contribui para a esculturação da rocha. Falhas/Fraturas: Por meio de análise da Folha Geológica Telêmaco Borba SG-22-A foram identificadas na área do PEVC sete fraturas, sendo quatro orientadas na direção NW-SE, uma orientada na direção NE-SW e duas na direção E-W. As fraturas presentes na região dos Campos Gerais do Paraná estão ligadas ao processo de formação do Arco de Ponta Grossa (PEREIRA et al, 2014). A estrutura geológica reconhecida como Arco de Ponta Grossa ocorreu devido aos processos de soerguimento e subsidência da borda leste da Bacia Sedimentar do Paraná. Durante a formação e evolução do arqueamento formaram-se fraturas orientadas predominantemente na direção NW-SE, as quais sofreram intensos processos de magmatismo, sobretudo no mesozoico (MELO et al, 2004). Fraturas são feições importantes no contexto geológico da região dos Campos Gerais do Paraná, pois, condicionam o sistema hídrico e controlam a geomorfologia. Embora ocorra com maior frequência feições orientadas no sentido NW-SE, existem também formações com orientação NE-SW. Com menos frequência e menor extensão, porém com a mesma importância geológica ocorrem fraturas na direção E-W (PEREIRA et al, 2014). Figura 02. Algumas das feições geológico-geomorfológicas existentes no PEVC. Figura 02 - Mosaico: a) Lapa; b) Marmita; c) Cachoeira das Andorinhas; d) Icnofósseis; e) Estratificação cruzada planar; f) Canyon no rio Jaguariaíva; g) Cachoeira do Lago Azul; h) Canelura; i) Bacia de dissolução; j) Lapa com erosão alveolar; k) Alvéolos; l) Relevo ruiniforme. Fonte: MENEGUZZO (2015).

Figura 01

Localização do PEVC.

Figura 02

Figura 02 - Mosaico: a) Lapa; b) Marmita; c) Cachoeira das Andorinhas; d) Icnofósseis; e) Estratificação cruzada planar; f) Canyon no rio Jaguariaíva;

Considerações Finais

O PEVC possui uma diversidade de feições geológico-geomorfológicas em afloramentos rochosos da Formação Furnas. O patrimônio natural da região, representado pela sua geodiversidade possui relevância para a prática do geoturismo, incluindo atividades como interpretação ambiental, educação ambiental, práticas de campo com alunos de instituições de ensino superior, atividade didáticas no ensino fundamental e médio, bem como pesquisas de cunho científico. Portanto, o potencial cênico da região, expresso em sua geodiversidade, pode ser explorado sob o viés do geoturismo.

Agradecimentos

Referências

IBGE. Barra Brava. Rio de Janeiro, 2001. 1 mapa: color.; 51 x 55 cm. Escala 1/50.000.
MELO, M. S. Formas rochosas do Parque Estadual de Vila Velha. Ponta Grossa: Editora da UEPG, 2006.
MELO, M. S.; GODOY, L.C.; MENEGUZZO, P.M.; SILVA, D.J.P. A geologia no plano de manejo do Parque Estadual de Vila Velha, PR. Revista Brasileira de Geociências. V.34, p. 561-570. 2004.
MENEGUZZO, I. S. Geoturismo no Parque Estadual do Vale do Codó, Paraná. In: MENEGUZZO, I. S. Unidades de conservação nos Campos Gerais do Paraná. Ponta Grossa: Estúdio Texto, 2015, p. 69-84.
MINEROPAR- MINERAIS DO PARANÁ S.A. (2006). Mapa Geológico da Folha de Telêmaco Borba, Folha SF- 22-X-A. Secretaria de Indústria, Comércio e do Turismo do Estado do Paraná. Escala: 1/250000. Curitiba.
OLIVEIRA, R. P.; GUIMARÃES, G. B. Caracterização dos icnofósseis da Formação Furnas na localidade de Lago Azul, Jaguariaíva-PR. . In: Paleo., 2005 - Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Paleontologia, 2005, Ponta Grossa. Boletim de Resumos da Paleo 2005.
PEREIRA, D. C.; OLIVEIRA FILHO, R.; CARNEIRO, M.M.; LIMA, D.; CASSOL PINTO, M.L. Lineamentos Estruturais da Borda Oriental da Bacia Sedimentar do Paraná: um estudo entre Carambeí e Ponta Grossa, nos Campos Gerais do Paraná. Revista Geonorte. Ed. Especial 4, v. 10, n.6,p.167-172, 2014.
PINHO, D.; THEODOROVICZ, A.; LAZARETTI, F. A.; LIMA, G. Mapa da Geodiversidade do Estado do Paraná como ferramenta para Gestão Territorial. 9° Simpósio Brasileiro de Cartografia Geotécnica e Geoambiental. Março de 2015. Disponível em:< https://pt.scribd.com/doc/289118540/Mapa-da-Geodiversidade-do-Estado-do-Parana-como-Ferramenta-para-Gestao-Territorial > acesso em 14 de abr. de 2016.
WRAY, R. A global review of solutional weathering forms on quartz sandstones. Earth-Science Reviews, n. 42, p.137-160, 1997.