Autores

Flores Dias, D. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA) ; Volpato Sccoti, A.A. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA) ; de Souza Robaina, L.E. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA) ; Trentin, R. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA) ; Silveira dos Santos, V. (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA)

Resumo

O presente trabalho tem como objetivo principal, apresentar um zoneamento das unidades morfolitológicas, com base nas informações e características do relevo e das litologias da Bacia Hidrográfica do Rio Ibicuí da Armada (BHRIA). A avaliação da área de estudo, deu-se através de uma abordagem sistêmica, onde os atributos físicos do ambiente são agrupados seguindo características comuns. A avaliação da área e a definição das unidades morfolitológicas, deu- se a partir da técnica de mapeamento geoambiental descrita por Robaina et al (2010), e aplicada em trabalhos desenvolvidos por Trentin (2011), Alves (2012) e Sccoti (2015). A partir disso, foram definidas oito unidades morfolitológicas para a área de estudo. Por fim, destaca-se que a metodologia utilizada neste trabalho tornou-se muito viável, onde um dos focos deste trabalho, é aproximar as discussões referentes ao planejamento e ao reordenamento territorial.

Palavras chaves

Zoneamento Morfolitológico; Bacia Hidrográfica; Ibicuí da Armada

Introdução

Atualmente, com o aumento da utilização dos recursos naturais, exige-se cada vez mais, a elaboração de estudos voltados a harmonização das interação a sociedade e a natureza. A dinâmica do ambiente está relacionada as modificações causadas pela ação antrópica. Diante disso, trabalhos que abordam a relação sociedade/natureza se revestem de grande importância, pois se hoje considerarmos todas os meios de atuação antrópica, pode-se que dizer que não mais existe natureza que ainda não tenha sofrido alguma forma de influência ou alteração antrópica. As formas de relevo e as litologias constituem o substrato físico sobre o qual se desenvolvem as atividades humanas e, sendo assim, trabalhos que determinem unidades homogêneas, são fundamentais para o entendimento dos processos geomorfológicos e de que forma, as ações antrópicas podem interferir no meio. Diante disso, este trabalho tem como objetivo principal, apresentar um zoneamento das unidades morfolitológicas, com base nas informações e características do relevo e das litologias da Bacia Hidrográfica do Rio Ibicuí da Armada (BHRIA).

Material e métodos

A avaliação da área de estudo, deu-se através de uma abordagem sistêmica, onde os atributos físicos do ambiente são agrupados seguindo características comuns. A avaliação da área e a definição das unidades morfolitológicas, deu-se a partir da técnica de mapeamento geoambiental descrita por Robaina et al (2010), e aplicada em trabalhos desenvolvidos por Trentin (2011), Alves (2012) e Sccoti (2015). O relevo foi analisado seguindo os seguintes parâmetros: amplitude altimétrica, declividade, perfil de curvatura e plano de curvatura. A fonte para a obtenção dessas informações foram a Base Vetorial Contínua do Estado do Rio Grande do Sul, com informações vetoriais na escala 1:50.000, organizada por Hasenack e Weber (2010), imagens orbitais disponibilizadas pelo Digital Globe (Google Earth) e as descrições realizadas nos trabalhos de campo. As classes utilizadas foram baseadas na proposta do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT, 1981), quanto a amplitude altimétrica (menor que 100 metros e maior que 100 metros), as declividades (<2%, 2-5%, 5-15%, >15%) e as unidades de relevo (áreas planas, colinas suaves, colinas, morrotes e morros). A geologia foi definida a partir das informações contidas no Mapeamento Geológico do Estado do Rio Grande do Sul, desenvolvido pela Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais – CPRM, na escala 1:750.000 (WILDNER, 2006). Posterior a isso, as informações foram refinadas para a escala 1:50.000, através dos trabalhos de campo desenvolvidos na área, onde foram descritas as características como cor, textura, forma de desagregação e condições do afloramento. Os trabalhos de campo, realizados de forma investigativa, configuraram uma importante etapa, tanto na definição das unidades de relevo, como no aperfeiçoamento das informações referentes a geologia, as descrições de alguns perfis de solo (de forma simplificada) e as condições de uso da terra. Os trabalhos de campo foram desenvolvidos seguindo perfis pré- estabelecidos, onde através de estradas e caminhos percorreu-se a área da bacia, possibilitando-se assim, a visualização e a descrição in loco. Por sua vez, as unidades morfolitológicas representam a interpolação dos elementos contidos nos levantamento de relevo e litologias. O uso de operações computacionais utilizando dados vetoriais, permitiu o cruzamento das informações, tendo como produto final, a indicação de diferentes Unidades Morfolitológicas na BHRIA.

Resultado e discussão

A BHRIA (Figura 1) localiza-se na porção sudoeste do Estado do Rio Grande do Sul, estendendo-se por três municípios (Dom Pedrito, Rosário do Sul e Santana do Livramento) e ocupa uma área total de 5.979 km². Unidades de Relevo Foram definidas seis unidades de relevo na BHRIA, sendo as mesmas espacializadas na Figura 2. Morrotes Isolados: são formas de relevo com declividade de encostas superiores a 15% e amplitude altimétrica inferior a 100 metros. Essas porções se mantem elevadas em relação ao seu entorno, em razão da maior resistência aos processos degradacionais. Representa 0,36% do total da BHRIA. Morros Isolados: diferenciam-se dos morrotes isolados em poucos fatores; um deles é com relação a amplitude altimétrica que é superior a 100 metros (IPT, 1981). Quanto as formas das vertentes é comum a ocorrência de cabeceiras de drenagem, com a presença de vertentes côncavo-convergentes, formando anfiteatros. Representa 0,15% da área da bacia. Colinas Suavemente Onduladas: são áreas com declividades predominantemente entre 2 e 5% e amplitudes altimétricas de aproximadamente 40 metros. Marcam a transição dos processos deposicionais para os degradacionais, ocorrendo o surgimento de incisões lineares. Representa 37,64% da BHRIA. Colinas Fortemente Onduladas: as declividades predominam entre 5 a 15%, apresentam interflúvios mais curtos e comprimento de vertentes menores. Algumas colinas apresentam degraus rochosos (rochas mais resistentes), que somente são identificadas in loco ou com material topográfico de alto nível de detalhe. É a unidade de relevo predominante, ocupando um total de 40,94% da BHRIA. Associação de Colinas, Morros e Morrotes: é composta de formas de relevo que podem variar de colinas com declividades em torno de 5% e amplitudes altimétricas de 40 metros, até morros com amplitudes altimétricas superiores a 100 metros e declividade maior que 15%. São observadas no extremo oeste e noroeste da BHRIA e representa 2,39% do total da área de estudo. Áreas Planas: a declividade não ultrapassa os 2%, associada a planície de inundação da BHRIA. Os eventos deposicionais predominam nessa unidade, sendo os principais representados por bancos de areia, conhecidos como depósitos de “barra de meandro”. Essa unidade corresponde a 19,04% do total da BHRIA. Distribuição das Litologias A BHRIA apresenta uma grande variedade de substratos litológicos distribuídos em sua extensão. A Figura 2 representa a espacialização das litologias na BHRIA. Depósitos Recentes: são compostos de materiais intemperizados e erodidos das porções mais altas topograficamente. Os principais depósitos encontram-se junto as margens do canal principal do Rio Ibicuí da Armada, compostos especialmente por bancos de areia, variando de areia fina a grossa, intercaladas com camadas silto-argilosas. Também ocorrem depósitos com materiais mais grosseiros (seixos e matacões). Ocorrem depósitos nas encostas, compostos de materiais heterogêneos (tálus e colúvios) provenientes movimento de massa das encostas. Ocupam 1.645,43 km² da BHRIA. Rochas Vulcânicas: provindas do vulcanismo fissural que capeou a Bacia Sedimentar do Paraná no Período Cretáceo, as rochas vulcânicas (Formação Serra Geral), caracterizam-se por apresentar composições ácidas e básicas com textura afanítica, classificadas pela CPRM (2006) como sendo das unidades Gramado e Alegrete. Ocupam 90 km² e ocorrem no extremo oeste da bacia e em alguns topos de morros e morrotes. Arenitos Eólicos: pertencem as Formações Botucatu e Piramboia (CPRM, 2006), provindos de antigas dunas. Os arenitos da Fm. Botucatu são mais jovens quando comparados aos da Fm. Piramboia, localizam-se na porção oeste da BHRIA, cobrindo uma área de 167,20 km², em contato com as rochas vulcânicas. São cimentados com sílica e raras vezes com óxido de ferro. Comumente são encontrados entremeados a derrames vulcânicos, também conhecidos como “arenitos intertrápicos”. Por sua vez, os arenitos da Fm. Piramboia, ocupam uma área de 1.612,20 km², correspondendo a porção central da bacia. Arenitos Fluviais: pertencem as Formações Guará e Sanga do Cabral, sendo a Fm. Guará mais jovem quando comparado a Fm. Sanga do Cabral. Os arenitos da Fm. Guará caracterizam-se por apresentar constituintes que variam de areia fina a porções conglomeráticas, predominando cores esbranquiçadas e amareladas com 749,2 km² de área. Por sua vez, os arenitos da Fm. Sanga do Cabral ocupam uma área de 478,11 km² e são constituídos de areia na fração fina a média e coloração avermelhada. Arenitos e Lamitos Marinhos e de Transição: representam os substratos litológicos mais antigos da bacia, constituídos pelos sedimentos da Fm. Rio do Rastro e do subgrupo Estrada Nova são rochas poucos permeáveis. Os sedimentos da Fm. Rio do Rastro, apresentam uma coloração avermelhada com algumas lentes argilosas de cor cinza (CPRM, 2006). Distribuem-se em 859,39 km² na BHRIA. Por sua vez, os sedimentos do subgrupo Estrada Nova apresentam coloração esverdeada e algumas porções amareladas. Ocupam 389,39 km² da BHRIA. Unidades Morfolitológicas A Figura 4 apresenta a distribuição espacial das oito unidades morfolitológicas da BHRIA. Áreas Planas com Depósitos Recentes: tangenciam o canal principal do Rio Ibicuí da Armada e seus afluentes. Na BHRIA são comuns os depósitos de barra de meandro e a formação de diques marginais próximos ao canal. Já nas porções mais distantes do canal é comum a formação de áreas úmidas, onde esses locais são ocupados pela água do rio em períodos de cheia, ocorrendo a deposição de materiais com granulometria mais fina (silte e argila). Corresponde a 22,33% da área da bacia. Morros e Morrotes Isolados: são feições que marcam a evolução dos processos erosivos sobre uma porção elevada do terreno. Na BHRIA, correspondem aos antigos modelados do que hoje é o Planalto da Campanha. São compostos de arenitos silicificados ou cimentados com óxido de ferro, porém, alguns apresentam topo coberto por rochas vulcânicas e os contatos são evidenciados por pequenos patamares ou degraus. De maneira geral, as elevações compostas por arenitos apresentam topos planos e quando cobertos por rocha vulcânica apresentam topo arredondado ou convexo-divergente. Ocupam uma área de 0,51%, sendo a classe menos expressiva na BHRIA. Colinas sobre Arenitos: é a unidade predominante, ocupando 48,28% da área de estudo. Caracterizam-se por apresentar formas com uma inclinação média entre 8 a 10%, sobre arenitos provindos de ambientes eólicos e fluviais. As áreas com essas características são observadas das nascentes até a foz do Rio Ibicuí da Armada, sendo que nas porções da cabeceira da drenagem o arenito mostra-se mais resistente. Já nas porções mais próximas a foz do Rio Santa Maria, os poucos afloramentos existentes mostram-se mais friáveis, porém com as mesmas formações geológicas. Colinas sobre Sedimentos Marinhos e de Transição: ocupam uma área de 21,11% e localizam-se ao leste da BHRIA. A peculiaridade desta unidade refere-se ao comportamento da água superficial, que devido à baixa declividade e a pouca permeabilidade, se mantem mais tempo na superfície do solo, e com isso, os solos apresentam grande concentração de matéria orgânica, coloração escura e presença de minerais como o óxido de ferro. Colinas, Morros e Morrotes sobre Intercalações de Rochas Vulcânicas e Sedimentares: ocupam 2,53% da área da BHRIA e representam a área do Planalto da Campanha, localizada na porção que corresponde ao Front da Cuesta que delimita a BHRIA a oeste. É a unidade em que há maior energia de relevo, em virtude das declividades serem acentuadas (superiores a 15%) nas encostas dos morros e morrotes. Cornijas de Arenito: são feições lineares abruptas, que não apresentam área significativa, porem são importantes visto que marcam processos de evolução do relevo. Escarpas: são feições comuns ao Rebordo do Planalto da Campanha, caracterizadas por superfícies lineares abruptas, marcando a transição dos patamares de dissecação.

Figura 1

Figura 1: Mapa de Localização da BHRIA. Elaboração: Sccoti, A. A. V. (2015).

Figura 2

Figura 2: Mapa das Unidades de Relevo da BHRIA. Elaboração: SCCOTI, A. A. V. (2015).

Figura 3

Figura 3: Mapa Geológico da BHRIA. Elaboração: SCCOTI, A. A. V. (2015).

Figura 4

Figura 4: Mapa Morfolitológico da BHRIA. Elaboração: SCCOTI, A. A. V. (2015).

Considerações Finais

As bacias hidrográficas do sudoeste do Estado do Rio Grande do Sul, tem sido objeto de estudo em diversas pesquisas geomorfológicas desde a década de 1980. Todavia, a configuração do relevo na Bacia Hidrográfica do Rio Ibicuí da Armada ainda não havia sido objeto de estudo através da análise dos atributos do relevo por meio da definição do zoneamento morfolitológico. Diante disso, a análise da área de estudo permitiu a compartimentação da BHRIA em oito unidades morfolitológicas, que foram delimitadas através do cruzamento entre as informações referente as unidades de relevo e a distribuição das litologias da área de estudo. Além disso, este trabalho também disponibiliza informações básicas para o conhecimento geral da bacia hidrográfica, que servirão como base para futuros estudos geomorfológicos e geoambientais. Por fim, destaca-se que a metodologia utilizada neste trabalho torna-se muito viável para a área em questão. Um dos focos principais desse trabalho, é aproximar as discussões referentes ao planejamento e ao reordenamento territorial, levando em consideração a definição dos locais mais apropriados para os diferentes usos.

Agradecimentos

Agradecemos a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela concessão da bolsa de estudos do primeiro autor.

Referências

ALVES, F. S. Fitogeografia da Região do Jarau – Quaraí/RS. Tese de Doutorado. Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. 2012.

HASENACK, H.; WEBER, E. Base cartográfica vetorial contínua do Rio Grande do Sul. Série Geoprocessamento. Centro de Ecologia/UFRGS. 1 DVD. 2010.

INSTITUTO DE PESQUISAS TECNOLÓGICAS (IPT). Mapeamento Geomorfológico do Estado de São Paulo. São Paulo. Escala 1:50.000, v. 2, p. 130, 1981.

ROBAINA, L. E. S.; TRENTIN, R.; BAZZAN, T.; RECKZIEGEL, E. W.; VERDUM, R.; DE NARDIN, D. Compartimentação Geomorfológica da Bacia Hidrográfica do Ibicuí, Rio Grande do Sul, Brasil: Proposta de Classificação. Revista Brasileira de Geomorfologia, v. 11, n. 2, p. 11-23, 2010.

SCCOTI, A. A. V. Zoneamento Geoambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Ibicuí da Armada-RS: Potencialidades e Suscetibilidades. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, RS, Brasil. 2015.

TRENTIN, R. Mapeamento Geomorfológico e Caracterização Geoambiental da Bacia Hidrográfica do Rio Itu – Oeste do Rio Grande do Sul – Brasil. Tese de Doutorado. Universidade Federal do Paraná, Curitiba, PR, Brasil. 2011.

WILDNER, W; RAMGRAG, G. E.; LOPES, R. C.; IGLESIAS, C. M. F. Mapa Geológico do Estado do Rio Grande do Sul. Escala 1:750.000. CPRM, Serviço Geológico do Brasil. Porto Alegre, RS. 2006.